Enxaqueca não resiste a Qualidade de vida e alimentação adequada

Entrevista feita por Marcos Linhares e publicada originalmente na saudosa revista Saúde Agora, em maio de 2009.

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Enxaqueca não resiste a Qualidade de vida e alimentação adequada

Ousado e divertido. A princípio, esses são os dois adjetivos que acabam brotando em nossas cabeças após conversar com um dos mais sérios estudiosos da enxaqueca do Brasil, o Dr. Alexandre Feldman. Feldman é clínico geral, especializado no tratamento de cefaléias. Convidado a dar palestras em congressos, universidades e empresas, em março de 2001 rompeu fronteiras e levou suas teorias para a terra de George Bush, palestrando em um dos maiores hospitais dos Estados Unidos, o Kaiser Hospital, em Los Angeles. Polêmico, resolveu encarar uma briga feia, defendendo a não necessidade de remédios, contrariando a política dos fortes laboratórios que bancam o setor. Baseado em pesquisas e em sua própria experiência clínica, Feldman acredita que o melhor caminho a seguir é respeitar seus próprio corpo, adquirir qualidade de vida e seguir uma alimentação correta.A revista Saúde Agora escolheu o dr.Feldman para lançar o projeto Saúde Agora e Sempre, e em parceria com a editora ARX (uma divisão da livraria Siciliano), lança em Brasília, nesta edição de maio, juntamente com a revista, o livro , Enxaqueca Finalmente uma saída. Feldman concedeu entrevista exclusiva para a revista -que foi dividida em três partes – e fala sobre incidência, sintomas, freqüência, enfim, aponta caminhos para melhor lidar com esse problema que incomoda a milhões de pessoas. Vamos à entrevista:

Saúde Agora – Qual a porcentagem da população é atingida pela enxaqueca? O problema é mais comum nos homens ou nas mulheres?

Alexandre Feldman- A enxaqueca é uma doença muito comum. Ela afeta cerca de 1/5 da população. Nesse caso, estamos falando de uma estimativa de 35 milhões de brasileiros. As mulheres são mais freqüentemente acometidas do que os homens, numa proporção de 3 a 4 para 1. Já crianças apresentam enxaqueca em igual proporção (1 menino para 1 menina com enxaqueca). Após a menopausa, a proporção de mulheres para homens com enxaqueca volta a diminuir, em comparação com o período reprodutivo da vida. A explicação está no desequilíbrio hormonal, tão freqüente na mulher, e que favorece o aparecimento da doença. Expostas a hormônios externos, como a pílula anticoncepcional, anéis vaginais e implantes, além de uma série de substâncias que podem interferir com o equilíbrio hormonal, desde corantes para cabelo, passando por cosméticos e até detergentes, tudo isso aliado a uma incrível falta de informação sobre o assunto, as mulheres estão mais predispostas ao desequilíbrio hormonal. Daí a verdadeira epidemia de enxaqueca, TPM, retenção de líquido, acne, cistos ovarianos, depressão e ansiedade, no sexo feminino. A enxaqueca é a número um no ranking de causas de consumo de analgésicos.

Saúde Agora Costuma-se ingerir analgésicos desordenadamente? Quais são as conseqüências? O que é efeito “rebote”?

Alexandre Feldman- Todos os remédios, sem exceção, possuem dois grandes problemas: 1) seu efeito vai diminuindo com o tempo, e 2) eles possuem efeitos colaterais. Qualquer tratamento bem feito precisa levar esses problemas em conta, e com os analgésicos não é diferente. Quando tomados muito freqüentemente, ainda que em pequenas quantidades por vez, sofrem uma diminuição progressiva do seu efeito. O indivíduo que antes melhorava com um comprimido, agora precisa tomar dois. O tempo que dura essa melhora também vai diminuindo cada vez mais, até que o impensável acontece: esse indivíduo passa a ter dores cada vez mais freqüentes, necessitando de doses cada vez maiores de analgésicos, podendo chegar ao estágio de dores diárias e analgésicos idem, num verdadeiro ciclo vicioso de dependência de analgésicos. Este é o fenômeno rebote: toma-se o analgésico, alivia-se a dor, passa o efeito do remédio e a dor volta de rebote. Como os analgésicos não foram feitos para serem utilizados todos os dias, acabam gerando uma série de efeitos colaterais, desde gastrites, passando por sangramentos no tubo digestivo, úlceras, insuficiência renal e até certos tipos de câncer. O mais trágico é que estes analgésicos, chamados de “comuns”, podem ser obtidos livremente em qualquer farmácia. Na bula de alguns, lê-se absurdos do tipo “não se deve exceder 6 comprimidos por semana”. Ora, essa quantidade já representa, praticamente, a semana inteira!! Mais uma prova de que a enxaqueca é um problema de saúde pública menosprezado, e que os custos e sofrimentos advindos do mau uso de analgésicos são imensos. Certamente, a falta de informação nessa área é um fator determinante no aumento desmesurado do custo-saúde do nosso país.

Saúde Agora E a questão alimentar?

Alexandre Feldman- Os conhecimentos adquiridos por diversas áreas da ciência nos últimos seis anos estão explicando o porquê da enxaqueca, em função dos alimentos. Compreender os alimentos e suas propriedades pró e antienxaqueca, é um grande passo, um poderoso instrumento, no sentido de controlar, definitivamente, esse mal. A maior farmácia do mundo está na nossa própria cozinha, e isso vale para a enxaqueca. Mas infelizmente, nas últimas décadas, as pessoas foram aprendendo que cozinhar é coisa de gente desocupada, desatualizada, submissa. O consumo de alimentos industrializados aumentou vertiginosamente, assim como a enxaqueca, a depressão e a ansiedade. Restaurantes fast-food reforçaram a idéia de que comer é perda de tempo, e portanto deve ser feito o mais rapidamente possível. Interesses de mercado, aqui também, influenciaram dramaticamente: o que mais se vende são produtos ricos em carboidratos refinados, sejam eles preparados com açúcar, farinha ou amido. Antigamente, o café era moído na padaria, você levava para casa e preparava no coador de pano. Atualmente, nunca foi tão fácil, rápido e barato tomar um cafezinho. Um refrigerante. Um suco (artificial, é claro). “Água? O que é isso??? Se eu tomar, é capaz de eu passar mal!!! Meu organismo não agüenta!”. Essa inversão de prioridades pode parecer piada, mas é assim que a maioria das pessoas que me procuram se refere a esse líquido tão precioso, tão saudável… e tão menosprezado. Nós somos o que comemos. Essa frase nunca foi tão verdadeira. Você come, por exemplo, um frango. O frango, hoje, deixou de ser um alimento natural, para se transformar numa mistura de gorduras e hormônios totalmente alterados. Afinal, foi à base de doses cavalares de hormônios, fatores de crescimento, antibióticos e suplementos artificiais que esse frango foi capaz de passar de um ovo a dois quilos de carne em pouco mais de um mês! Nós fazemos parte de um sistema chamado cadeia alimentar. Pense no peixinho que é engolido pelo peixe maior, que por sua vez é engolido pelo peixão. No final, ao comer um frango, você está comendo aquilo que ele comeu antes! Acredite: ao contrário do que você e seu médico sempre acreditaram, o frango comum, que se encontra por aí, é um dos alimentos menos saudáveis que existem! Se os hormônios dele estão alterados, ao devorá-lo, os seus hormônios também se alteram. Sabemos que o desequilíbrio hormonal é um dos fatores determinantes da enxaqueca. Se por um lado os conhecimentos na área de alimentação estão progredindo, por outro, a difusão destes conhecimentos precisa acompanhar de perto esse progresso. Pensando nisso, desenvolvi, nos últimos anos, um programa de medicina do estilo de vida, que consiste em reuniões com grupos de pessoas ao redor de um fogão, onde é possível mostrar, na prática, que alimentação saudável não é um castigo para quem está doente. Muito pelo contrário! Mostramos receitas surpreendentes, deliciosas e rápidas, com ingredientes que têm o poder de restaurar e manter a nossa saúde. Tão deliciosas, que as pessoas chegam às suas casas e preparam, logo no dia seguinte, estas receitas para seus familiares e amigos. Estamos aplicando, na prática, dentro da cozinha, os últimos avanços da ciência no que diz respeito à alimentação saudável, e os pacientes estão melhorando como nunca. O mais impressionante é que, junto com a melhora da enxaqueca, melhoram também os distúrbios de humor, os sintomas menstruais como TPM, o excesso de peso, a retenção de líquido… Prova de que a doença não é desvinculada do resto do organismo.

Saúde Agora Como a indústria farmacêutica se comporta nessa área?

Alexandre Feldman-Dentro de hospitais universitários, proliferam centros que às vezes recebem nomes pomposos como “núcleos”, “grupos”, “ligas” de cefaléia, onde o que mais se faz é testar drogas novas para o tratamento de enxaqueca e dores de cabeça crônicas, como se esse tratamento devesse consistir exclusivamente de remédios. O pior é que tais centros, assim chamados “de referência”, formam profissionais e produzem quase todas as teses de pós-graduação, com base apenas e tão-somente na abordagem farmacológica, intervencionista. Essa abordagem, verdadeiramente simplista, que resume o tratamento da doença à eliminação de seus sintomas, e não das suas causas, vai muito mais de encontro aos interesses da indústria farmacêutica que dos pacientes. No Brasil, essa manipulação de interesses dentro das universidades é ainda maior. Congressos inteiros são custeados, teses de pós-graduação patrocinadas e grandes carreiras viabilizadas pelos fabricantes de remédios, o que naturalmente centraliza os interesses dos formadores de opinião no caso, os médicos envolvidos – não propriamente em saúde, mas sim, em doenças enquanto estado de deficiência de remédios. Fora desses centros, proliferam profissionais médicos interessados em saúde e na sua obtenção e manutenção, não apenas através de remédios, mas também de mudanças alimentares, de sono, de atividade física, enfim, nos hábitos e estilo de vida do indivíduo, aliadas a tratamentos que podem até incluir remédios, mas não necessariamente. Estes assuntos são vistos com desprezo pelos centros universitários que, na prática, enxergam o paciente como mero receptor passivo de tratamentos, visão esta endossada pela indústria farmacêutica. O que eles se esquecem, é que a saúde não está nos hospitais, mas sim em casa, na cozinha, no quarto, nas decisões pessoais quanto a rotinas quotidianas tão simples quanto o horário de ir deitar. A ciência, por outro lado, não para. No mundo, estudos sérios são realizados em animais de laboratório e seres humanos, no sentido de se desvendar o funcionamento do cérebro e do restante do organismo. A ciência da evolução está se unindo à medicina de ponta, e explicando como nós fomos programados, ao longo de milhões de anos, para sermos do jeito que somos. É claro que a grande maioria das doenças possui uma explicação genética, no sentido que as doenças de hoje eram vantagens evolutivas de antigamente. É que em termos evolutivos, o nosso mundo mudou muito rápido nos últimos poucos séculos. A luz artificial trouxe o dia à meia-noite, o açúcar se compra por quilo, e tudo isso é tão natural para nossa espécie quanto seriam pássaros vivendo no fundo dos mares. Mas para nossos centros universitários de formação médica, alheios a tais influências, as doenças estão se tornando cada vez mais, erros genéticos. Se um gene é “responsável” pelo “aparecimento” da enxaqueca, então a doença se transforma num estado de “falta de terapia genética para enxaqueca”, “terapia” esta muito perseguida por outra indústria cujo interesse número um é o lucro, e não a saúde: a da biotecnologia

Saúde Agora O que podemos esperar do livro “Enxaqueca. Finalmente uma saída”?

Alexandre Feldman- Este novo livro vai mudar o destino de quem sofre de enxaqueca, para melhor.Ele mostra a enxaqueca sob um novo ponto de vista, no qual a doença deixa de ser um castigo crônico, para se tornar um mal perfeitamente tratável e controlável a partir de mudanças nos hábitos e estilo de vida do indivíduo, o que inclui reeducação alimentar, de sono, de atividade física e outras ações, que resultam na melhora de fatores que podem estar causando e/ou desencadeando a enxaqueca. Enfim, é um livro que nunca deveria sair da cabeça de quem sofre de enxaqueca! O livro, entre outras coisas, mostra a abordagem que venho fazendo com os meus pacientes nos últimos anos, com a qual venho obtendo resultados extremamente satisfatórios. O livro é todo fundamentado no tratamento que eu aplico aos meus pacientes, com resultados excelentes. Os pacientes chegam, por vezes, no meu consultório com dores diárias, e muitos deles, atualmente, podem dispensar os remédios. O livro ilustra os fundamentos de uma nova vertente da medicina, toda ela baseada em evidências científicas, que batizei de Medicina do Estilo de Vida. Nela, os remédios saem do pedestal e deixam de ser a única opção para o doente. Remédios servem apenas para aliviar sintomas, mas não atuam nas causas. Quando ministrados isoladamente, apenas distraem a atenção do paciente e do médico, para aquilo que causou a doença, e que continua lá a não ser que se façam mudanças nos hábitos e no estilo de vida. Nesse momento, o médico deixa de ser um mero fornecedor de receitas e dietas mirabolantes e irreais, para se tornar um exemplo a ser seguido. O profissional que praticar a Medicina do Estilo de Vida estará se especializando em SAÚDE, não em doenças. De certa forma, muitos médicos já vêm fazendo assim com seus pacientes. Nunca gostaram de remédios no sentido usual da palavra. Por sinal, a quase totalidade dos médicos é assim, quando o destino faz com que se tornem pacientes. Para muitos deles, as suplementações que utilizam apenas complementam uma detalhada orientação alimentar, uma ampla revisão dos hábitos de vida, de maneira geral, bem como da capacidade de lidar com os vários tipos de estresse aos quais estamos submetidos. Tudo o que a Medicina do Estilo de Vida propõe, é que essas orientações, assim como essa visão mais crítica dos remédios, deixem de ser informais e se tornem prática comum nos consultórios do Brasil. Vários médicos de todo o Brasil vêm me procurando, no sentido até de organizarmos um Encontro sobre Medicina do Estilo de Vida, o que me deixa muito feliz. Antes deste livro, eu já havia escrito três outros: Dor de Cabeça, Este Labirinto Tem Saída (Edições Paulinas, 1991), Enxaqueca – Alívio Para o Sofrimento (Editora Siciliano, 1994) e Cefaléias Primárias – Diagnóstico e
Tratamento (Editora Artes Médicas, 1995), este último voltado apenas para médicos.

Enxaqueca. Um tema que atinge uma em cada cinco pessoas no mundo. Na edição passada, publicamos a primeira parte de uma entrevista esclarecedora sobre o tema com o clínico geral, especializado no tratamento de cefaléias, Dr. Alexandre Feldman (Veja em Matérias de Capa). Leia agora, a penúltima parte que aborda o medicamento da “moda”, no tratamento das enxaquecas, o topiramato.

Saúde Agora Quais as diferenças entre enxaqueca e cefaléia?
Alexandre Feldman – Cefaléia é o nome técnico que os médicos usam para chamar a dor de cabeça. Portanto cefaléia e dor de cabeça são sinônimos. Existem muitas causas de cefaléia (dor de cabeça), e a enxaqueca é uma delas. Existem 316 possíveis causas de dor de cabeça além da enxaqueca, como por exemplo, sinusite, meningite, gripe, aneurisma, crise de pressão alta, tumor cerebral, distúrbios circulatórios, metabólicos. A enxaqueca é o tipo mais complicado de diagnosticar, pois o diagnóstico não depende de exames, mas sim, da conversa (entrevista, anamnese) que o médico tem com o paciente durante a consulta. Quanto mais detalhada for a anamnese, maior a possibilidade de um bom diagnóstico. A maioria das outras dores de cabeça são sintomas de alguma doença. Uma vez diagnosticada e tratada essa outra doença, a dor de cabeça (cefaléia), que era sintoma, desaparece. Já na enxaqueca, a cefaléia não é sintoma de nenhuma doença ela é a própria doença. É a verdadeira dor inútil

Saúde Agora O que existe de mais recente para a prevenção das crises no que se refere ao tratamento com medicamentos? O Sr. Recomenda o medicamento “topiramato” utilizado no tratamento de epilepsia?
Alexandre Feldman – O topiramato (nome químico do remédio Topamax), tem ganho muito destaque na imprensa e tem sido a grande estrela em congressos médicos de dor de cabeça no Brasil. Foi a estrela de um simpósio internacional realizado nos dias 25 e 26 de abril, em São Paulo. Por ser tão falado e badalado, está se transformando no remédio da hora, na bola da vez para enxaqueca. Os pacientes mais “antenados”, devoradores de notícias sobre enxaqueca, já estão perguntando a seus médicos se o topiramato (Topamax) não seria a solução definitiva para seus problemas. Muitos destes médicos chegam a sentir-se praticamente obrigados a prescrevê-los, sob pena de serem taxados de desatualizados, obsoletos ou retrógrados. Infelizmente, a meu ver, o topiramato (Topamax) não é, nem jamais poderá ser, a resposta que a maioria dos sofredores de enxaqueca anseia. Ele pode ser, e é, um recurso útil apenas e tão somente para uma pequena minoria deles. Em primeiro lugar, é bom esclarecermos que o topiramato (Topamax) é um remédio que foi originalmente descoberto, patenteado e registrado com sendo para epilepsia, não para enxaqueca. Pesquisas posteriores acabaram revelando que esta droga possuía a capacidade de diminuir a freqüência das crises de enxaqueca em uma certa porcentagem de seus usuários. Mais uma vez, a enxaqueca “pega carona” em algum remédio de outra especialidade. A mesma história que ocorreu com antidepressivos, remédios para pressão, coração, circulação, antialérgicos, etc, está ocorrendo com alguns remédios para epilepsia, dentre os quais o topiramato (Topamax). Ocorre que para a indústria desenvolver e estudar remédios preventivos específicos, apenas para enxaqueca, os custos seriam muito altos em comparação com os benefícios. Digamos assim: desenvolver um medicamento preventivo específico para enxaqueca não é um negócio “rentável”… A conseqüência é que os pacientes e seus médicos, simplesmente, acabam tendo de se virar com o que tem por aí. O fato de um remédio para epilepsia funcionar também na enxaqueca, indica que esta droga “atira para todos os lados”. Acerta o alvo da epilepsia, e, em alguns casos, o alvo da enxaqueca. O problema de se “atirar para todos os lados” é que pode-se acabar por atingir também, alvos totalmente inocentes. E aí aparecem os temíveis efeitos colaterais. Entretanto, nós todos sabemos que qualquer fabricante de qualquer produto nesse mundo não tem interesse em divulgar o lado negativo de seus produtos, e quando é obrigado a fazê-lo, tende a minimizá-lo. Afinal, qual é a mãe que falaria mal do próprio filho? Qual o fabricante que falaria mal do próprio produto? O topiramato (Topamax), como eu disse, pode ser útil em alguns casos, mas infelizmente este benefício, quando ocorre, pode vir acompanhado de desagradáveis efeitos colaterais. O topiramato (Topamax) pode aumentar significativamente as chances de desenvolver pedras nos rins. Pode interferir com a função mental, provocando lentidão psicomotora, dificuldade de concentração, nervosismo, agressividade, anorexia, formigamentos, depressão, fala “arrastada”, dificuldade de se lembrar das palavras, distúrbios da atenção, sonolência e fadiga. Interfere negativamente no efeito da pílula anticoncepcional. Ao ser administrado para ratas grávidas, provocou o aparecimento de malformações no crânio e na face dos ratinhos bebês, além de uma redução no peso e no processo de sossificação dos fetos. Ainda em ratos, que receberam tratamentos prolongados com topiramato, ocorreu um aumento significativo na incidência de tumores na bexiga. Em seres humanos, o topiramato (Topamax) pode interferir na ação de outras drogas que o indivíduo esteja tomando, como calmantes, alguns diuréticos, outros antiepiléticos e, como já mencionei, hormônios estrógenos. Se a administração de topiramato (Topamax) for interrompida bruscamente, podem ocorrer convulsões mesmo em quem nunca sofreu de epilepsia na vida. Portanto, essa droga deve ser descontinuada lentamente, especialmente quando as doses receitadas forem altas. Ah, mas se pelo menos o topiramato (Topamax) acabasse de vez com a enxaqueca, será que mesmo assim não valeria a pena? O topiramato (Topamax), segundo um estudo amplamente divulgado pelo seu fabricante, conseguiu reduzir uma freqüência média anual de 5,4 para 3,3 enxaquecas por mês, quando numa dose de 100 mg por dia. Para mim, esse resultado não é impressionante o suficiente para expor meus pacientes, em massa, aos desagradáveis efeitos colaterais. O que é muito impressionante no topiramato é o custo. O preço de uma caixinha de Topamax com 60 comprimidos de 100 mg, cotado em duas grandes farmácias de São Paulo, no dia 26 de abril de 2003, foi de R$ 298,86. Alguns pacientes precisam tomar até dois comprimidos ao dia. Este remédio é complicado, apresenta efeitos colaterais até no bolso do paciente! Com tudo isso, vocês devem estar imaginando que eu sou contra remédios, e particularmente contra o topiramato (Topamax). Mas a coisa não é assim. Eu não sou contra o topiramato (Topamax). Eu inclusive o receito a alguns dos meus pacientes, em doses bem baixas. A minha crítica é a falta de divulgação adequada dos possíveis efeitos colaterais e, principalmente, ao abuso na prescrição deste e de outros remédios. Os remédios devem ser prescritos e tomados conscientemente. Eles podem melhorar apenas os sintomas, porém jamais atuam na causa da doença. Na minha opinião, o controle da enxaqueca se obtém através de uma ação conjunta envolvendo mudanças de hábito alimentar, de sono, de exercício e também remédios preventivos (que em alguns casos podem até ser o Topamax) e para crise. Colho os resultados destas medidas na prática, quando posso dar alta aos meus pacientes.

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