Saúde Mental no Brasil: Isolar não a saída – Fale! Brasília 4- Agosto 2009

fale BRASÍLIA _ 04 _ 00000000001-1Em agosto de 2009, lançamos o quarto número da Fale! Brasília – revista na qual fui diretor de redação-, e pudemos abordar assuntos importantes com matérias de fôlego. Uma delas abordou a questão da saúde mental e estampou a capa da publicação. Impressiona ver a atualidade da matéria em 2018. Compartilho com vocês o texto, escrito por mim, pelo Gabriel Alves e pelo Bruno Saviotti.

Isolar não é a saída

Ainda falta muito para que a saúde mental possa ter o cuidado, a atenção e o orçamento que precisa, no Brasil e no Distrito Federal

Por Gabriel Alves, Bruno Saviotti e Marcos Linhares

Tudo indica que a questão da saúde mental caiu no gosto da opinião pública: Esquizofrenia sendo abordada em novela das oito, da Rede Globo; livros com explicações sobre processos mentais que levam a certos comportamentos (Mentes inquietas e Mentes perigosas, de Ana Beatriz Barbosa Silva) figurando nas listas de mais vendidos, entre outros. Contudo, as políticas públicas parecem estar em descompasso em todos os níveis da federação.

Segundo dados do Ministério da Saúde, três por cento da população sofre com transtornos mentais severos e persistentes, algo em torno de 5,5 milhões de pessoas. Somente a esquizofrenia, atinge quase dois milhões de brasileiros e 12% da população necessita de algum atendimento em saúde mental, seja ele contínuo ou eventual. E 2,3% do orçamento anual do Sistema Único de Saúde (SUS) são dedicados à saúde mental. Os recursos para a área de saúde mental foram cortados em 14,46%. Em 2008, a rubrica atenção para a saúde mental contou com R$ 808.835 reais . E vai diminuir ainda mais: a proposta para o próximo ano é de apenas R$ 700 mil. A redução de verba para construção e manutenção de Caps foi ainda maior: de 99,61%. Em 2008, havia R$ 2,5 milhões de reais disponíveis. Em 2009, os centros terão apenas R$ 10 mil.

Mudanças – A triste realidade dos manicômios, o péssimo quadro de investimentos nos doentes mentais e a luta antimanicomial têm pressionado o governo. A reintegração dos pacientes com menos distúrbios começou a ganhar força e se tornar um sonho possível. Foram criados pelo governo projetos para apoiar os parentes para aceitar a volta dos internos para suas residências, entre esses o programa “De volta Para casa”. Criado em 2003 e instituído pela Lei 10.708, de 31 de julho, a estratégia do programa é auxiliar a assistência, acompanhamento e integração social de pessoas que sofrem de distúrbios mentais fora das unidades hospitalares.  O objetivo é mostrar que ficar perto da família e estar em contato com a rotina da comunidade em alguns casos é a melhor forma de reintegração para quem tem problemas mentais e está internado há mais de dois anos. Para essas pessoas, o Governo Federal ajuda com um auxílio-reabilitação psicossocial (R$ 240), um apoio para melhorar a vida de quem vai retornar pra casa. O auxílio também tem caráter indenizatório para os que, por falta de oportunidade, foram submetidos a tratamentos aviltantes e privados de direitos básicos de cidadania. O programa também acompanha visitas de profissionais para analisar como tem sido o retorno do paciente. “O movimento de voltar pra casa tem o sentido de acolher e cuidar dessas pessoas que sofreram barbaridades nos sanatórios brasileiros”, explica o doutor em psicologia do Ministério da Saúde, Eduardo Passos.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, explica em livreto sobre a saúde mental que o programa completa quatro anos e incluiu mais de 2,6 mil pacientes nos programas. “Enfrentamos dificuldades iniciais importantes – falta de documentação dos pacientes longamente internados, perda quase absoluta dos seus vínculos sociais, entre outros pontos-, mas foi possível constatar os efeitos imediatos do Programa no cotidiano das pessoas egressas de hospitais psiquiátricos”, revelou. O ministro diz também que o auxilio-reabilitação realiza uma intervenção significativa no poder contratual dos seus beneficiários, potencializando a emancipação e autonomia. O auxílio também tem caráter indenizatório para os que, por falta de oportunidade, foram submetidos a tratamentos pesados e privados de direitos básicos de cidadania.

Foi uma ampla mudança do atendimento público em Saúde Mental que garantiu o acesso da população aos serviços e o respeito aos direitos e a liberdade. Esse novo conjunto de procedimentos é amparado pela lei 10.216/2001, conquista de uma luta social que durou doze anos. Isso significa a mudança do modelo de tratamento: ao invés de isolar é mais adequado o convívio com a família e a comunidade.

O atendimento é feito em Caps, residências terapêuticas, ambulatórios, hospitais gerais e centros de convivência. As internações, quando necessárias, são feitas em hospitais gerais ou nos Caps/24 horas. Os hospitais psiquiátricos de grande porte são progressivamente substituídos.

 

Do manicômio à sociedade, essa é a solução segundo especialistas – Apesar de alguns avanços,  o Brasil sofre com o precário atendimento à saúde. A média é de cinco médicos para cada 100 mil habitantes. Cerca de 85% das pessoas com problemas mentais não tem acesso ao tratamento devido. Atualmente, no Brasil, existem cerca de 30 mil profissionais em saúde mental. Segundo esses dados do Ministério da Saúde e baseado no despreparo da saúde mental, especialistas estiveram na Universidade de Brasília, em junho, para debater o tema Reforma Psiquiátrica no Mundo: O Desafio do Acesso ao Tratamento . Entre os participantes estava o diretor do Departamento de Saúde Mental e Abuso a Substâncias, da Organização Mundial de Saúde (OMS), Beneditto Saracena, mediador na Reforma Psiquiátrica por trabalhar com a idéia de superar o uso de modelos com premissas.

O psiquiatra coloca a acessibilidade e a inclusão à sociedade como um processo obrigatório. Segundo Saracena, esse acesso pode ser dividido em três termos: menus de programas (assistência, reinserção, lazer, hospitalidade e trabalho); geografia (local fluxo viário e barreiras físicas) e turnos de funcionamento ( serviço único ou integrado).  Beneditto Sacarena acredita na teoria de desconstruir o manicômio dentro dele mesmo. Segundo o psiquiatra, o problema é o paradigma na medicina, “pois você entra no hospital doente e sai doente”, lamenta. Para ele, o tempo de vida de um paciente é maior na comunidade do que nos hospitais. Saracena diz ser incontável o número de pessoas que precisam de tratamento. “Necessitamos de um câmbio de paradigmas para a atenção a saúde mental dentro da sociedade. O médico tem que ir a sociedade, mudar o hospital para a casa”, destaca.

Dentre os participantes da conferência estava o médico e cirurgião, João Batista, que coloca a falta de gestão como o maior problema da saúde mental no Brasil. Para ele, o investimento na atenção primária (uma atenção básica, que visa avaliar o paciente desde os primeiros problemas) é mínimo. O médico destaca também outros problemas da saúde no Brasil. “Nós temos um grande fato que é o preconceito, e ainda temos a pressão dos profissionais de saúde. O problema da saúde mental também é visível nos países desenvolvidos”, completa. Batista provocou e perguntou aos integrantes da mesa que participava quanto tempo falta para mudar esse quadro. Beneditto Saracena respondeu que os médicos e profissionais devem ser capacitados. “Dependemos de vários pontos, como o campo cultural, em que saúde mental não é psiquiatria e dependemos da parte financeira. Ou seja, quando? Isso só depende do país”, ressalta.

Segundo Saracena é muito importante pro Brasil ter ética e princípios pragmáticos em saúde mental. O psiquiatra completa que nunca terá um sistema de saúde perfeito, mas deve-se alertar o sistema político. “Hoje a cobertura de saúde mental é de 55%, temos que lutar pra chegar à totalidade”, diz. Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2002, 21% da população tinha acesso aos serviços. Em 2008, a porcentagem foi pra 55%.

Ao fim da palestra, o usuário Amilton Freitas contou a história de vida dele e se disse revoltado com a situação atual. “Sempre participei da luta com o sonho de mudar a instituição que fui tratado (a clínica psiquiátrica Casa das Palmeiras-RJ). Vi vários amigos se recuperando nessa luta pela importância que o davam como pessoa”, conta. Para Freitas o sistema era concreto e de repente “teve uma conjuntura de mandar clichês mentirosos, falsos moralistas”.  Freitas explicou que para ele, “os técnicos se fragilizaram na condição do tratamento e o usuário começou a sentir uma falsa comunicação entre médicos e pacientes. Vimos que o outro lado tornou-se fascista”, revoltou-se. O usuário emociona-se e pede desculpa pelo radicalismo, mas ressalta que não quer ser objeto, e sim um ser humano. “Será que é difícil podermos participar do nosso próprio tratamento”, finalizou acompanhado de uma salva de palmas.

O professor do Instituto de Psicologia da UnB, Ileno Izídio da Costa,  colocou a Universidade como uma instituição chave para conscientizar os profissionais da saúde. “Temos que pensar em saúde mental como um todo, não só na doença. A saúde mental é o sofrimento de um indivíduo que está inserido num contexto social. Precisamos de mais serviços, um tratamento dentro da comunidade, com uma equipe multidisciplinar, formada por psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais”, ressaltou.  Izídio completou ressaltando que a situação da saúde mental no Distrito Federal é desastrosa. O professor coloca três pontos fundamentais pra melhorar o quadro. “Precisamos alertar o governo, aumentar o número de serviços e capacitar os profissionais”, citou.

 

Distrito Federal –  A falta de apoio do governo no setor da saúde mental é visível num quadro feito pelo Ministério da Saúde. O Distrito Federal, em razão da não implementação da reforma psiquiátrica, em termos quantitativos e qualitativos, objeto de legislação federal datada da Lei 10.216, está na penúltima posição do ranking. O DF tem apenas dois Caps I e II (em horário comercial), enquanto que Minas Gerais possui 106. O DF tem um único CapsIII (atendimento 24 horas) e não possui Capsi (Infância e adolescência) e Capsad (Álcool e drogas). A recomendação é um Caps para cada mil habitantes.  A média do Brasil é somente 0,5. O indicador do DF é de 0.22.  Só perde para estado do Amazonas, com 0.10.

 

Parlamentares em ação  –  No âmbito federal, umas das poucas vozes que por anos a fio tem ido a tribuna e, além disso, participado dos debates sobre saúde mental, é o deputado federal Germano Bonow (DEM–RS). Em Brasíia, a deputada Distrital, Érika Kokay (PT) tem se ocupado desse tema. Em audiência pública, proposta por ela, e realizada na Câmara Legislativa, em abril, especialistas apontaram a ineficiência do Instituto de Saúde Mental do Distrito Federal (ISM/DF).

Hospitais Psiquiátricos perdem força com a luta – “Tem que levar pro HPAP”, essa frase está no vocabulário dos brasilienses. A popularidade do hospital se deu pela quantidade de internações, além de ser o único do Distrito Federal. O HPAP é também chamado de São Vicente de Paula. Inaugurado em 1959, na cidade de Taguatinga, funcionou como hospital geral até ser reformado em 1976 e ser transformado na primeira unidade especializada no atendimento à saúde mental do DF, com o nome Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico (HPAP). Nos 34 anos de funcionamento, o hospital passou por reformas, como adequação às mudanças das características da assistência à saúde no DF. “O hospital vive um meio termo, meio misturado, ainda com traços de manicômio, mas com mudanças vinculadas com a Reforma Psiquiátrica”, diz o professor do Instituto de Psicologia, da UnB, Ileno Izídio.

No HPAP, separados por sexo, os usuários do local tomam banho de sol isolados em pátios. Apesar disso, o hospital tenta melhorar e adaptar-se a Reforma Psiquiátrica, por meio dos trabalhos sociais e de convivência. Os cozinheiros da cantina são internos e eles tem a oportunidade de trabalhar e conviver. Dessa maneira, criam vínculos de amizade e apresentam melhorias notáveis na terapia e,  consequentemente ganham estímulos para o crescimento pessoal.

Narcisa Silia Marinho faz acompanhamento psiquiátrico no hospital há 18 anos. Já fez tratamento em Belo Horizonte (MG), mas quando mudou para Luziânia (GO), passou a se tratar em Taguatinga (DF),onde foi internada diversas vezes. “Quase todo ano eu dava entrada no hospital”, afirma. Toma remédios controlados, trabalha, e sua melhora tem o aval do diretor do hospital.

 

O Hospital São Vicente de Paula, hoje, disponibiliza outros serviços como o Programa Vida em Casa (PVC) e oficinas terapêuticas de bijuterias, culinária, tecelagem, trabalhos manuais e serigrafia.

 

Luta contra a depressão – A cidadã honorária de Brasília e diretora da Biblioteca Demonstrativa Maria da Conceição Moreira de Salles sofreu uma forte depressão, em 2000. Perdeu 20 quilos e foi parar numa cadeira de rodas. Ela conta a “Fale!Brasília” que tudo começou com a impossibilidade de doar o rim pro irmão, pois Conceição tem pressão alta. “Fiquei muito chateada, queria ajudá-lo”, confessa. Apesar de estar sempre animada, disse que depois disso, perdeu a vontade de viver durante a depressão.

“Emagreci mais de vinte quilos, perdi toda a massa muscular, cheguei a andar de cadeira de rodas. Jogo vôlei na seleção de time Master de Brasília, faço musculação, fui sempre uma pessoa extremamente ativa, de uma hora para outra me vi com 50 e poucos quilos, sem força muscular, uma dor no corpo inteiro, fui definhando. A dor da alma é maior que a dor física”, destaca.

Certo dia Conceição não agüentou a excessiva dor e ingeriu uma caixa de Lexotan (tranqüilizante). “Nem lembro de quanto tempo dormi”, revela. Ela desmaiou e foi socorrida por um “milagre”, pois a empregada tinha terminado o expediente, mas resolveu voltar. “Ela parece que pressentiu”, comenta. A empregada viu Conceição desmaiada e ligou para a família. “Um amigo meu que ajudou, brinca que devo pagar todas as multas, porque ele acelerou o máximo pra chegar no hospital”, satiriza. Por não saber onde estava o plano de saúde, ela foi levada ao Hospital de Base. No pronto socorro, Conceição diz que caiu de cara no chão e não lembra. Na época, queriam levá-la a um hospital particular, mas a médica do Hospital de Base disse que seria melhor ficar ali mesmo.

Maria da Conceição conta que lá foi uma verdadeira história de vida. Ficou internada, durante um mês, na ala da psiquiatria do hospital. “Fiquei deitada, não conseguia fazer nada,não tinha forças pra levantar. Você se prende na cama, é um horror, perdi um mês da minha vida. Fui ao fundo do poço, no buraco mais fundo que possa imaginar. No Reveillon e no Natal não tinha vontade de me mexer”, relata. O que despertou Conceição foram os conselhos da sobrinha. “Ela falava para mim: ‘Tia a vida está lá fora, você tem que lutar’.

Conceição deu a volta por cima, continua nas aulas de vôlei, faz academia, está há mais de 25 anos no comando da Biblioteca Demonstrativa e ajuda pessoas com depressão. “Não tenho vergonha de contar o que sofri. Acho que com a minha história posso auxiliar outras pessoas”, finaliza.

Projetos sociais: Um tapa no governo – Em Brasília, há outros projetos com êxito no tratamento, como os realizados pela ONG Inverso. Situada num pequeno estabelecimento na quadra 408 norte, o trabalho deles é garantir os cuidados e os direitos das pessoas com transtornos mentais. Dessa forma, a ONG visa três metas fundamentais para a inclusão: Cultura, informação e formação.  Os pacientes realizam das segundas-feiras até os sábados, oficinas para desenvolver a capacidade mental. No total são cinco diferentes tipos de oficinas, entre essas, de informática, artesanato, leitura, culinária e o jornal “Cabesão (escrito assim mesmo, com “s”)- O jornal da livre expressão”. Criado pelas psicólogas da ONG, o tablóide contém quatro páginas com curiosidades sobre a loucura e textos e histórias dos pacientes. Segundo os criadores, é proibido não reproduzir.

As psicólogas responsáveis pela Inverso são completamente contra a super medicação, por isso a ONG preserva a convivência. “Aqui trabalhamos com o simples, o cotidiano, com o que a vida tem de sadia. Na Inverso, eles são livres pra falar e fazer o que bem entender, se estão com vontade de fazer um pão de queijo, de dançar, de contar piada, eles vão e fazem, não temos restrição a nada”, explica a psicóloga Liz Radicchi.

Para a diretora da ONG Inverso, Eva Faleiros, a vantagem é que não é uma instituição presa a amarras, e por isso não precisam seguir regras. “Isso causa muita estranheza, com qualquer um. As pessoas chegam e perguntam onde estão os armários com os remédios e os prontuários. Eu digo o seguinte: quando vou à casa de um amigo não tenho que preencher uma ficha de adesão e ninguém faz chamada pra ver a freqüência”, completa. Eva diz que trabalha com o aspecto sadio e com o reintegrar-se a vida. “Nós percebemos que as pessoas foram mais excluídas do que se imagina. Nós lutamos porque eles têm que estar na sociedade”, defende. Radicchi explica que “essa idéia de acabar com o manicômio é uma idéia chave no meio desse processo, valorizando os serviços substitutivos, como a criação dos Caps. É importantíssimo que tenham esses outros meios pra que as pessoas possam voltar pra casa. Voltar ao convívio social, ao convívio familiar. Nós observamos que com o processo de amadurecimento o que é perdido no transtorno psiquiátrico grave são justamente os elos, os laços sociais. Por isso é importantíssima a criação dessas instituições”.

 

Desabafo de um dos freqüentadores da Inverso – “Sou usuário de serviços de saúde mental há mais de 30 anos. Tenho 56 anos e me trato desde os 23. Fui internado em dezenas de hospitais psiquiátricos, em várias cidades e estados deste país. Desde minha primeira internação fui internado pelo meu problema com o alcoolismo. Eu era um sujeito intelectual, cheio de vontade e inspiração e a internação me trouxe revolta; foi pior que prisão. Fui internado porque minha família não tinha experiência e nem informação e queria arrumar uma solução pra o meu alcoolismo. Meus sofrimentos foram vários. Eu não tinha uma noção específica do que se tratava uma internação psiquiátrica. O que eu tenho a declarar é que essas internações não resolveram nada. No meu modo de pensar só me deram revolta, pelos meios que são utilizados nestas clínicas e pelas pessoas com quem somos obrigados a conviver. Ficava deprimido e tremia vendo os maus tratos dos profissionais com os internos e o comportamento dos demais pacientes. Acredito que a ajuda psicológica e psiquiátrica são importantes, desde que dentro da lei, com muita responsabilidade e profissionalismo. Acho a internação necessária somente nos casos em que a família não consegue suportar algum membro da própria família, como no caso de indivíduos extremamente violentos. Para quem não precisa, a internação é uma prisão bastante violenta. É também uma situação de vergonha”, relato de Timóteo (nome fictício).

 

A revista Fale! Brasília acompanhou a rotina da Ong

 

Local: Debaixo do tradicional Café da Rua 8. Freqüentadores: Ex pacientes de manicômios e pessoas que tem algum distúrbio mental.

1º. dia – Não é a toa que a Ong se denomina como um Instituto de Conveniência e de Recriação do Espaço Social. Uma sala pequena, bem arejada. Microondas, ventilador, computador, geladeira, uma mini biblioteca, duas mesas e fogão ocupam o espaço. Tudo faz com que os principais freqüentadores do lugar se sintam em casa. Entre eles estava Luis, 57 anos de luta pela lucidez, QI avançado, olhar concentrado e sorriso de garoto. Ele recebe nossa equipe, tira o fone do ouvido e interrompe a aula de música, referente a uma das oficinas proporcionadas pela Inverso.

Luis conta um pouco sobre a realidade da saúde mental no DF. “A cúpula de saúde mental está viciada nas antigas teorias. O governo não consegue enxergar a nova realidade, como o Carlos (outro cidadão da Inverso), que pega ônibus, malha quase todos os dias, ou seja, tem uma vida ativa”, ressalta. Luis acha que o mundo precisa ver o quão necessário eles são pra sociedade. “Porque só assim vão dar valor pro doente mental”, diz. Luis faz Tai Chi Chuan, malha diariamente, bíceps, tríceps, paralela e abdominal. Na mesa, Luis termina um dos vários artigos escritos por ele. O politizado escritor conta que brigou com Deus e com isso descobriu os princípios eternos: Trabalho, leitura e esporte. “Agora quero aproveitar as oportunidades, minha deficiência existe, minha dificuldade existe, mas dá pra levar a vida”, completa. Entre os textos finalizados estava a Marchinha A Turma da Esquizo:

 

A turma da esquizo

 

Chegou à turma da esquizofrenia

Todo mundo nu com o fiofó na pia

E o culpado disso foi a famia

E os inimigos da famia

Nós fomos nos tratar

O que fizeram foi nos atrapalhar

Pois as psicólogas são piores que as tias

Procuramos à psiquiatria

Pior seria, pior não seria.

Melhor seria se trabalhássemos

E bebêssemos o mijo da cutia

 

Viva Deus Viva a Natureza,

Viva eu, viva o dia,

Viva o Mijo da cutia

 

 

2° dia de visita. Inverso estava cheia. Oficina do jornal O cabesão. Na mesa principal, todos os freqüentadores, psicólogas e pacientes se misturam numa harmonia só. Pode-se resumir a alegria da inverno em uma hora. 15h: Cheiro de pipoca no ar, feita por Fabiano. Enquanto o paciente oferece para todos da mesa, chega Gerson. Um pouco alcoolizado. Trinta e cinco anos de psiquiatria. Meio abatido pelo tempo e pelo longo sofrimento nos hospícios. Fala do alcoolismo. Meio inquieto conta que o álcool é um vicio forte. “Não consigo me conter”, alega. Ao fundo, na cozinha, Sérgio coloca a água do café pra borbulhar.  As psicólogas prestam atenção na história de Gerson. No meio da mesa está Eva, a diretora da Ong que é distraída por Gilberto. “Ontem bebi só uma cerveja, depois fiquei no guaraná”, ressalta.  No canto da mesa está Carlos, o desenhista do jornal. Atento a tudo, escuta a história de Gerson que continua. “O problema do alcoolismo é que tenho que mentir às vezes pro meu pai. Peço dinheiro pra tomar café da manhã, na verdade é pra beber. Preciso de um espelho pra enxergar a realidade”, conta. Do outro lado da sala, sem escutar o assunto está Fabiano e Leocádio num papo sobre times de futebol favoritos e dicas de malhação. Na outra mesa, perto da entrada da ONG está Terezinha e Graça, ambas tricotam e dão risadas constantes de alguma piada. Sérgio que fazia café se despede de todos, um por um. “Foi um prazer a visita de vocês”, diz.   Na mesa principal, Gerson continua a história e fala que hoje está com três terapeutas pra ajudar no alcoolismo. “Sou capaz de parar, eu sei disso, sou paciente, mas minha mente é fértil. Mas, infelizmente às vezes não consigo controlar. Sou compulsivo por álcool”, lamenta. Eva interrompe a história pra deixar claro um termo. “Você disse a palavra paciente, vocês não são passivos e sim ativos. Paciente é quem está no hospital, deitado numa cama”, completa. O café é servido por Fabiano. “Melhor café do mundo, diz ai”, comemora. Enquanto se orgulha do café, Fabiano mostra os cordões que fez na oficina de Mosaico. “Tem de R$8, R$10 e R$15 reais, são bonitos. Vou ver se faço mais essa semana”, promete. Após vinte minutos, na mesa o assunto muda. Gerson diz que é consciente do que é Saúde Mental. Para ele, a questão da saúde mental não vai ser fácil de resolver no Distrito Federal, pois o posto de saúde não tem condições. “Não querem resolver”, complementa Eva. A alegria continua durante os outros minutos. Gerson se acalma. A cantoria se espalha na sala junto com os vários cigarros acesos. Às 16h, acabam as atividades, mas a alegria na Ong parece não ter fim.

 

História dos manicômios – Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, as doenças psiquiátricas atingem 21% dos brasileiros. Os transtornos são resultados de uma junção de fatores sócio-ambientais com a predisposição genética dos doentes. De acordo com a associação, o tratamento dessas pessoas deve ser uma combinação de medicamentos e psicoterapia. No início do século XVIII, tendo por base alguns conhecimentos de distúrbios mentais, surgiu a necessidade de construir casas para abrigar, recolher ou ajudar as pessoas que apresentavam esses sintomas em grau elevado. Criaram-se assim os hospitais psiquiátricos. Os hospitais tinham como filosofia cuidar dos excluídos da sociedade como: leprosos, ladrões, vagabundos e prostitutas que ficavam reclusos em instituições fechadas, e os “loucos” eram obrigados a conviver com todos os delinqüentes-como eram classificados na época. As formas de tratar o paciente eram impostas pelos manicômios como a maneira ideal de cura. Os médicos usavam verdadeiros instrumentos de horror para tentar acalmar a agitação dos pacientes. Ao passar do tempo, muitos desses instrumentos “curadores”, viraram na verdade métodos de tortura: eletrochoque, insulinoterapia (faz o pacientes entrar em coma) e neurolépticos (sedativos do sistema nervoso central). Além da lobotomia, último recurso utilizado para casos mais graves.  O primeiro hospital psiquiátrico do Brasil foi feito por D. Pedro II, inaugurado no Rio de Janeiro, em 1841. Em algumas cidades mineiras como Diamantina, os pacientes ficavam em porões das Santas Casas.

Luta Anti Manicomial – Para mudar a imagem desgastada dos manicômios, ainda no século XIX, o médico Philippe Pinel revolucionou na medicina e na psicologia, os métodos de tratamentos dos doentes mentais. Segundo o artigo, “Uma nova concepção de loucura”, da psicóloga Julia Paglioza Álvares, Pinel foi considerado o libertador dos alienados, pois quebrou correntes e tirou doentes mentais das celas e passou a usar métodos mais humanos para tratar os problemas dos pacientes. A partir das ações do médico se começou a pensar numa possível maneira de cura para os doentes mentais. Somente a partir da metade do século XX, inicia-se uma mudança radical no tratamento das doenças e nas instituições psiquiátricas. Essa evolução surge na Itália impulsionada pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia e começa a ter repercussão no mundo todo, inclusive no Brasil. A Reforma Psiquiátrica ganha impulso, em meados dos anos 70, somente um século após a construção do primeiro manicômio do Brasil. A partir da reforma e dos movimentos sociais, o país aparece num novo contexto de redemocratização e de mobilização político-social. Com uma forte mobilização de especialistas, profissionais da saúde mental e dos familiares dos pacientes.

Organizações que vale a pena conhecer e ajudar:

Associação dos Amigos da Saúde Mental (Assim) – Centro de Reabilitação, de Recuperação e de Ressocialização de pessoas portadores de transtornos mentais e emocionais. Sem caráter lucrativo e com personalidade jurídica própria, beneficente e filantrópica. Riacho Fundo I – Telefone: (61) 3399-3900 – www.saudemental.org.br/

Instituto Amigos da Mente – ONG situada em Brasília e dirigida por pessoas comprometidas em ajudar portadores de desordens mentais como: síndromes, transtornos, psicoses e outros. (61) 3395-4320| – www.amigosdamente.org.br

Instituto de Convivência e de Recriação do Espaço Social (Inverso ) – Instituição sem fins lucrativos que tem como objetivo primeiro a garantia do cuidado e dos direitos das pessoas com transtornos mentais. Asa Norte-
Telefone: (61) 3273 4175 – www.inverso.org.br

Iniciativas – Recentemente, foi lançado o Fórum Permanente de Políticas Públicas em Saúde Mental do DF e Entorno, e realizado o I Encontro sobre a Escola de Saúde Mental do  Cerrado. A Escola de Saúde Mental é um projeto do Ministério da Saúde, que pretende tornar-se um centro de referência para os profissionais da área. A primeira unidade, nos moldes propostos pela Reforma Psiquiátrica, já foi implantada no Rio de Janeiro. A de Brasília seria a segunda.

 

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