Uma Glorinha inspira muita gente. Glorinha e Adriana inspiram muito mais

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Uma Glorinha inspira muita gente. Glorinha e Adriana inspiram muito mais

 

Por Marcos Linhares
A primeira lágrima teimosa rolou pelo rosto de uma aluna. Depois, várias delas já desciam pela face. O alívio maior veio ao ver que suas colegas, professoras, enfim, também vertiam gotas salgadas e doces, afinal, as lágrimas eram parte indispensável e indisfarçável daquele momento.

Não havia espaço para tristeza, nem temor, nem pensamentos pessimistas, só havia luz e inspiração. No peito dos presentes, a fagulha acesa do pensamento inebriante que dizia o tempo todo: “Puxa, quer dizer então que eu também posso fazer algo a mais?”

No início, antes de as primeiras palavras cortarem o ar e adentrarem o pavilhão auditivo e a percepção dos presentes, o clima era de ansiedade e dúvida sobre o que sairia daquele evento.

“Será que seria bom? Será que tirarei algo para mim?”

Poucos minutos depois, as expressões de dúvida foram sendo substituídas por admiração, às vezes incredulidade, e emoção na maior parte do tempo.

Os alunos nos passavam isso. Alguns não conseguiram esperar pela hora das perguntas e já se manifestavam espontaneamente.

Foi uma noite em que a universidade da vida foi trocar experiências com o ensino formal. Tudo começava a fazer mais sentido. “O conhecimento pode me ajudar a fazer mais, ir mais longe, reclamar menos”, essas foram algumas das frases que saíram de bocas carinhosas e encantadas.

Os olhos das professoras também brilhavam, afinal a atividade proposta havia atingido, aparentemente, seu alvo.

E nós que achávamos que iríamos levar algo, muito recebemos também. Fomos catalisados por aquela atividade de troca. Quando vimos uma professora abraçar uma aluna, depois de um depoimento, sentimos que no caminho encontram-se novos caminhantes.

Foi assim que nós- Eu, Glorinha (Maria da Glória Nascimento de Lima) e Adriana Kortlandt -, tivemos uma experiência única com estudantes de Pós-Graduação,  da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Tudo isso aconteceu na sala B46,  do campus da Unifor, na noite de 15 de março, dia no qual aceitamos o desafio e fomos dividir com os alunos da instituição um pouco da saga de Glorinha, contada no livro de Adriana Kortlandt, intitulado “A Casa da Vida” (Tagore Editora).
WhatsApp Image 2018-03-19 at 21.39.27Foi-me dado o papel de mediador. Por conhecer a personagem, a autora e a história, me senti bem à vontade.

A Pós da instituição criou um programa chamado “líderes que transformam”  e segundo eles: ” o aluno assimila que a liderança transformadora não está muitas vezes em grandes projetos, mas também no seu dia a dia, quando gestos e ações mais simples, propagados, ganham força e inspiram pessoas. Por isso, essa liderança não é algo tão distante da sua realidade”.

GlorinhaUma tempestade solar invadiu a sala quando Glorinha começou a falar,com seu jeito direto, como foi que escolheu acolher os desvalidos, apesar de ter ficado órfã muito cedo, sendo abandonada na porta de um convento em Juazeiro do Norte, terra de Padre Cícero.

Acolhida por um frei, adotada por um casal, ela desenvolveu desde muito nova a necessidade de dar abrigo a crianças em situação de risco, como ela foi um dia, acolhendo o primeiro bebê quando ela mesma tinha apenas oito anos de idade. A partir daí, não parou mais.

Ela fundou o Lar da Criança Padre Cícero, instituição que deu abrigo a mais de 2.500 pessoas. O livro “A casa da vida” conta a sua história.

“Não há dificuldade que resista quando você acha que pode e deve fazer algo. Eu escolhi amar essas pessoas e disso fiz minha vida. De resto, só tive que ter fé e encarar os problemas, pois se queremos mudar algo, temos que andar sempre em frente, reclamando menos e fazendo mais”, disse Glorinha.

AdrianaAo lado dela, a escritora e psicóloga, Adriana Kortlandt que, depois de conhecer Glorinha, resolveu contar essa bela história.

“Acho que a profissão de psicóloga tem uma influência muito grande nesta vontade. Quando se trabalha com psicologia clínica, você é abençoado com a possibilidade de conhecer um ser humano de uma forma mais abrangente do que no dia a dia, e de acompanhá-lo numa trajetória criativa de busca de entendimento e soluções. Então, tenho um profundo respeito e interesse por questões biográficas. Adoro testemunhar a alquimia que as pessoas fazem para vencer seus desafios, e a vida da Glorinha é uma alquimia diária!”, observou Adriana.

Ela contextualiza o livro: “Vivemos um momento mundial de estupefação e desânimo. Os modelos de vida no qual depositávamos nossas esperanças estão dando sinais de falência. Um exemplo, o paradigma da modernidade: ‘Mais indústrias, mais tecnologia, e terei uma vida melhor’. Este modelo está mostrando seus limites – basta pensar no esgotamento dos recursos naturais, na produção de lixo de nossa civilização, que deu conta até de fazer surgir continentes de plástico nos oceanos. Voltando para nosso mundinho, e citando Nelson Rodrigues, nós brasileiros ainda vivemos no eterno complexo de vira-latas, nos colocando em uma situação de inferioridade voluntária em face ao resto do mundo, que mal conhecemos, por sinal. Então, apresento o exemplo contrário: Uma mulher, nordestina, iletrada e pobre, decide (com o auxílio de várias pessoas) lutar contra o destino que provavelmente teria, se não tivesse tomado a decisão de mudar de vida, e diariamente. Ela está viva, enfrentando crises, esmorecendo e se levantando, diariamente. E isso é muito, muito inspirador!”, pontuou a escritora.

Já mediei vários eventos mas este me tocou também. E muito.

WhatsApp Image 2018-03-19 at 21.23.58Agradecemos imensamente à Unifor que completará 45 anos em 23 de março deste ano. A troca nos renovou as forças. Agradecemos em especial à  Vice-Reitora de Pós-Graduação da Unifor, professora Lília Sales,  pelo convite. E à Maria Paula Fidalgo, que fez a ponte com a instituição.

Saímos todos melhor do que chegamos. E a vida, como sempre, renovou o brilho e a esperança.

Em tempo, li no evento um trecho do livro que divido com vocês. No trecho temos a presença do marido de Glorinha, Israel, figura admirável e essencial nessa história, e de Mércio, filho querido, que também esteve presente no evento:

Imagine a Cena transcrita de um dos trechos emocionantes do livro
“Estamos na primavera de 1985. Quatro meses antes um conhecido me
ligou.
– Glorinha, ali perto do estacionamento do Country tem um menino de 11
anos, lavando carro. O menino é inteligente que só.
-E por que você não ajuda ele?
-Não é bem assim, Glorinha. Ele é provedor da família toda. Eles se escondem
em um barraco ali perto, no meio do mato. Parece que a mãe é bem doente. É o
caso de tirar todo mundo dali, a família toda, você tá me entendendo? Isso eu não posso fazer.
Dia seguinte fui lá ver. Ver miséria é sempre algo chocante. Faço questão
de nunca me acostumar, muito menos num país riquíssimo, onde se rouba dos
cofres públicos, aumentando a miséria.
Deitada num colchão podre, Susana estava morrendo. O menino alimentava toda a família lavando e vigiando carros. Quatro crianças, contando com ele e a mãe, doente terminal com câncer no ânus. Quando cheguei, a cena: Luciana, cinco anos, agachada do lado de fora do barraco, limpando algo com as mãos. O que será? Fui ver. A menina retirava as fezes da mãe do fundo de um balde e com as próprias mãos. Não tinham um só pano à disposição, nem sabão, nem água encanada, nada, nada, nada, mil vezes nada… São imagens que te acompanham o resto da vida. Israel que me perdoe, meus filhos que me perdoem, mas eu não sei ficar parada vendo um troço desses! Tentamos conversar, embora sua voz fosse quase inaudível.
A senhora veio rezar por mim?
– Rezar? Se comida, água, e ajuda forem reza, sim! Vamos para minha casa?
-Vamos.
– Estou com o carro cheio até a tampa. Amanhã eu volto e levo vocês, tá bom?
-Que bom.
Nesta época ainda não tínhamos as instalações que temos hoje. (…) Colocamos um biombo de um lado, um armário de outro, dando um pouco de privacidade à família. Passei a noite costurando os lençóis e algumas roupas folgadas para Susana. Para as crianças, pegaria roupas e sapatos dos meninos, de qualquer forma roupa pessoal era um conceito quase inexistente, era tudo de todo mundo e pouco, ainda por cima. Preparei também o espírito de Israel. Os cinco novos moradores fediam a fezes e tinham uma crosta de sujeira na pele. Talvez tivéssemos que raspar as cabeças.
Dia seguinte, Chevette vazio e forrado, fui buscá-los. (…)
-O que a senhora quer que eu faça?, perguntei, sentindo uma vergonha
universal do ser humano, todos: Políticos, religiosos, engajados de todas tribos,
de mim mesma, que dizia toda, toda, vem lá prá casa, mas oferecia uma
garagem, uma cama para toda a família, a mesma história de sempre.
Orgulhosa mesmo só fiquei de Israel que, em meio a seus conflitos sobre viver
meu sonho, e não o dele próprio, organizou da melhor maneira possível o
quartinho e ainda carregava Susana para lá e para cá. Igualmente orgulhosa de
meu filho biológico, Mércio, quatorze anos, que ofereceu sua única camisa para
o menino de onze, recém chegado.
-Ué, Mércio, mas foi teu primeiro presente de aniversário, só prá você… Não
se incomoda em dividir?
-Quem divide a mãe com todo mundo, vai lá se preocupar com camisa?
Entendi o recado. Só que não dava para mudar.(…)””

Mais fotos daquele memorável dia:

 

 

 

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